segunda-feira, 20 de abril de 2009

† Text 04/09

O passeio





Abro outra garrafa. Meu estômago revira-se em protesto contra minha atitude suicida, mas mesmo assim insisto. Cada gole desce como ácido pela minha garganta, pesa como chumbo, mas ajuda a empurrar os comprimidos. Não sinto gosto, não sinto cheiro, apenas desejo o torpor intenso que começo a sentir. Deito-me onde estou e deliro em meus sonhos que já não fazem mais sentido. Isso me apavora.
Levanto-me e começo a andar em círculos pelo pequeno quarto, até que resolvo vestir um casaco e sair. Cai uma chuva densa e morna, juntamente com um vento gélido que queima ao tocar a pele. Gosto dessa sensação. Caminho sem rumo, sem reconhecer as ruas que por tantos anos trouxeram-me tanta segurança e que agora mais parecem levar-me para minha execução a cada passo. Chego a uma reserva florestal próxima a minha casa. O cheiro de vegetação molhada me anima. Caminho sem me importar com a lama, as pedras, os galhos que machucam, pois nunca precisaram dar licença para estranhos, e eu estava lá, invadindo, arrancando tudo ao meu redor com meu espírito devastador.
Minhas pernas fraquejam e ajoelho-me ao lado de uma árvore, deitando em seguida. A chuva fica ainda mais intensa, mal enxergo, então somente fecho os olhos e sinto aquelas gotas que mais pareciam pedras cobrirem-me sem piedade. Viro a cabeça para o lado, tive a impressão de que iria me afogar, mas era só o vinho sendo recusado por meu estomago já tão frágil. Coloco a alma para fora, juntamente com o que sobrara em meu corpo, já que a comida me enojava há dias. Sento-me, ainda recostada na árvore. Tento observar algo, mas meus olhos não têm mais foco. Meus cabelos escondem minha face lívida e calma após noites em gritos de loucura. Torno a cabeça para o lado e fecho os olhos, nada ouço, nada vejo, nada sinto. Meu corpo tem espasmos, tremores, que não sei se são decorrentes do frio ou do choque por ter bebido tanto.
Num certo momento sinto duas mãos, pequenas, delicadas e quentes, tocarem meus cabelos. Não viro para ver quem é, apenas me entrego. Em seguida, braços macios e delicados como lençóis de seda me envolvem, num abraço terno e sem questionamentos. Deixo-me cair, aqueço- me em segundos. Lágrimas caem sem saber por quê. Fecho os olhos e ouço uma voz sem gênero.
- Estou aqui, tenha calma.
Senti uma tranquilidade invadindo-me, similar à do ventre materno, ou até maior. Agarro-me àqueles braços aparentemente tão frágeis e adormeço.
Acordo em uma cama grande, com lençóis brancos e muitos travesseiros. Não consigo enxergar o restante do quarto, tamanha é a claridade do ambiente. Meus olhos haviam se habituado à escuridão. Tento virar-me, mas sinto muita dor. Permaneço na mesma posição, virada para o lado direito da cama, olhando o vazio. Estou seca. Minhas roupas também não são as mesmas, são claras, limpas, leves. Observo meus braços, meu corpo. Vejo cicatrizes e hematomas que não reconheço. Sinto uma vontade imensa de chorar, mas aqueles lençóis branquíssimos imploram para que não o faça.
Escuto passos, lentos e alegres. Fecho os olhos fingindo ainda dormir. Sinto aquela respiração branda próxima a mim e um beijo no rosto como quem diz "cheguei". Aquela pequena mão passeia pelos meus braços, pelos meus cabelos. Fico imóvel. Sinto a doce figura se afastando e num reflexo abro os olhos e seguro aquelas mãos de porcelana, puxando-as em minha direção. Não vejo o rosto, mas por instinto, beijo-a suavemente, todavia com a voracidade de uma caça que encontra sua presa.
Não consigo ainda enxergar nitidamente, devido à claridade, mas reconheço uma figura feminina, de pele branca como gesso, e expressão calma. Desconcerto-me por causa do beijo com o qual a havia agredido sem permissão, mas ela não aparentou se importar. Colocando a mão em minha face, ordena com a voz mais terna que já ouvi: "levante-se".
Tento levantar-me, mas minhas pernas não têm estabilidade, tropeço e sento-me novamente à beira da cama colocando a cabeça dentre as mãos. Ela se aproxima: "Perdida minha flor?". Talvez esteja.
Em um súbito ataque de consciência, levanto-me e sigo aquela bela imagem até uma porta de vidro, que dá para um jardim cheio de flores do campo. Flores simples, nem tão bem cuidadas, mas lindas e perfumadas. Ela senta-se em um banco e eu a sigo, sentando ao seu lado. A claridade que me cegava diminui, mas ainda me perturba. Mal consigo manter os olhos abertos, mas ainda consigo admirar aquela mulher cuja qual seria redundante chamar de angelical.
Ela debruça-se sobre mim, está vestindo um longo vestido branco, com alças de renda. Eu finalmente consigo identificar minhas roupas. Uso uma calça larga de algodão leve e uma camiseta branca. Tento beijá-la novamente num impulso, mas ela vira o rosto. Envergonhada, torno a observar o jardim como fazia anteriormente. Ela me segura e me beija com a mesma intensidade, ou até maior, do que quando a beijara. Adormeço lenta e despercebidamente em seus braços.
Estou novamente em minha cama, com as mesmas roupas com as quais saí de casa, calça jeans, camisa e casaco pretos, ainda úmidos. Os cabelos com algumas folhas daquela árvore na qual me recostei. Levanto-me e tiro aquele incomodo de meu corpo, vestindo algo seco. Ainda estou tonta, mas enxergo bem na escuridão de meus aposentos. Observo meu corpo, as cicatrizes sumiram. Estou trêmula. Teria sido um sonho? Não, não é possível. Minhas roupas, agora pelo chão, meus cabelos, meus sapatos sujos de lama denunciam meu passeio. Observo insistentemente tudo ao meu redor, tentando encontrar uma prova do que havia visto e sentido. Em meu braço apenas uma fita de seda branca, como os lençóis da cama em que antes me encontrava. Desamarro a fita procurando algo que não sei. Leio gravado em letras acinzentadas, quase invisíveis, uma pequena mensagem. O quarto está escuro, não consigo ler. Abro a janela desesperadamente, e virando a fita contra a luz do por do sol, após aquela chuva que embalara meu desatino, e leio a mensagem: "Quando precisar estarei aqui."




Confesso que não sou boa em textos. Isso foi mais um ensaio para ver se coloco as palavras de forma coerente quando o assunto é narrativa. Espero não ter cansado os olhos alheios ao ler algo tão amador. E agradeço o tempo desperdiçado. Beijos

6 Reações adversas:

  1. Olá!
    Nada de tempo desperdiçado!!!

    Bom texto, ótimo! Teu talento deve ser cultivado, ramificado...
    O que vc apresenta aqui é fantástico, digo sem nenhum medo de parecer exagerado!!!

    Abraços!!! e continue!

    D.Machado

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  2. Meu,ficou perfeito *-*
    Pra primeira vez,eu digo realmente que fiquei sem palavras ao ler toda a narrariva.
    Tbm sei que esse tipo de texto tem características bem sentimentais e pessoas,eu amei,sério *-*
    Beejinhus!
    =*

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  3. Onde estás???
    rsrs
    Tem um selo pra vc no meu blog!

    Saudade dos seus posts!

    Até!

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  4. e quem disse que beleza não pode ser medida?

    se não pode, depois deste texto, tem de inventar uma escala para isto.

    já tive oportunidade de ler outros textos seus, descritivos, como este. bom, são perfeitos, originais e como não pdoeria deixar de ser traços muito marcantes, chuva, gostos, sensações. és muito boa em relatos introspectivos. Talento nato, moça!


    bjs...
    Blog Suicide Virgin

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  5. sim sim ^^ tens um talento ^^ e nao faz estes olhos alheios cansarem.. só os fazem apreciar.. uma obra.. mto boa por sinal ^^ bem.. até ^^

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  6. Nem preciso dizer que admiro sobremaneira esta sua veia ultra-romântica.

    Saudades.

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